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Não é brincadeira
ESPORTE E JOGOS

Não é brincadeira

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O vascaíno Jonathan Henrique Silva queria, como todo garoto, ser jogador de futebol. Era bom de bola, mas um convite da professora de educação física o fez seguir pelo caminho inesperado do atletismo. No lugar de Roberto Dinamite, maior ídolo da história do Vasco, passou a ter como inspiração para o salto triplo os feitos de Adhemar Ferreira da Silva (bicampeão olímpico em 1952 e 1956), Nélson Prudêncio (prata em 1968 e bronze em 1972) e João Carlos de Oliveira, o João do Pulo (recordista mundial e bronze olímpico em 1976 e 1980). Aos 21 anos, Jonathan faz parte da nova geração de atletas brasileiros que está muito longe do estrelato, mas nem por isso deixa de sonhar com resultados excepcionais em Londres. Para os caçulas da delegação nacional, a ascensão tão meteórica quanto surpreendente torna qualquer sonho possível – quem sabe até uma final olímpica? Ou mais?

Nascido em Varginha, em Minas Gerais, Jonathan tinha certeza de que seria um craque dos gramados. “Eu nunca pensei que fosse deixar o futebol e só participei do campeonato de atletismo para ajudar a escola”, diz. “Competi no salto em altura, fiquei em primeiro lugar e quebrei o recorde do município.” Na época, tinha 14 anos e o resultado o levou para uma competição maior, esta para outra e assim por diante, até que a cidade ficasse pequena demais para os seus saltos. Em 2008, veio para São Paulo fazer um teste na equipe de Nélio Moura, técnico da campeã olímpica Maurren Maggi. Foi aceito de imediato. Hoje, mora em um alojamento para atletas na capital paulista e concilia os estudos com os treinos. Jonathan cursa o primeiro ano da faculdade de administração de empresas e, como todo atleta de elite, faz malabarismos na agenda para participar das competições e cumprir a rotina universitária.

PARA O ALTO Jonathan ocupa a sexta posição no ranking mundial do salto triplo, que leva em consideração as melhores marcas do ano
PARA O ALTO Jonathan ocupa a sexta posição no ranking mundial do salto triplo, que leva em consideração as melhores marcas do ano

Em 2011, Jonathan não conseguiu atingir a marca dos 17 metros necessários para ir ao Pan-Americano e ficou fora dos Jogos de Guadalajara. Foi depois dessa decepção que veio o grande resultado de sua carreira. Em abril, ele atingiu 17,39 metros, 19 centímetros acima do índice exigido pela Confederação Brasileira para ir a Londres. E mais: tratava-se do segundo melhor salto do ano (hoje, Jonathan aparece em sexto lugar no ranking da Federação Mundial de Atletismo). “Fiquei surpreso com a marca que alcancei”, diz. “Ela me deu muita confiança para a Olimpíada.” Segundo o treinador Nélio Moura, muitas conquistas estão por aparecer. “A meta do Jonathan para 2012 era a classificação para Londres, e ele conseguiu”, afirma Moura. “Podemos dar mais um passo agora, melhorando a consistência de seus resultados e avançando para a final. Ele deve estar pronto para brigar por medalhas nos Jogos do Rio, em 2016.”

A mesa-tenista paulista Caroline Kumahara também projeta medalha para 2016 e espera usar Londres como uma etapa fundamental para o processo de amadurecimento. Ela diz que seu aniversário de 17 anos deve ser o mais marcante de todos. A data será comemorada no dia 27 de julho, que coincide com a abertura da Olimpíada de Londres. Ser precoce é uma marca de Caroline. Aos 12 anos, com idade para disputar campeonatos com outras crianças, chegou ao topo do ranking em uma categoria para adolescentes. Aos 16, entrou para a seleção adulta, conseguiu o ouro no Campeonato Latino-Americano e a prata no Desafio Mundial de Jovens, realizado na Índia. A única opção que “demorou” a fazer foi pelo próprio tênis de mesa, que começou a praticar, como brincadeira, aos 9 anos.

“Não sinto falta da rotina normal de uma adolescente. A minha paixão é o tênis de mesa” - Caroline Kumahara
“Não sinto falta da rotina normal de uma adolescente. A minha paixão é o tênis de mesa” – Caroline Kumahara

A primeira experiência esportiva de Caroline foi o futsal. Aos 6 anos, começou a jogar com os primos e o irmão Caio, que atualmente veste a camisa do Sporting de Portugal. O jogo em família evoluiu para os treinos na escolinha de futsal, esporte que ela praticou até os 10 anos. O problema é que aquela não parecia ser uma modalidade que proporcionasse grande futuro e o pai de Caroline a convenceu a procurar outra coisa. O tênis de mesa surgiu por acaso. A família de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, trocou o apartamento por uma casa e o novo endereço tinha espaço para uma mesa de tênis de mesa. Foi aí que tudo começou. Não demorou e Caroline já ganhava com facilidade dos adultos e ficou claro para ela que havia encontrado sua vocação.

Hoje Caroline integra a equipe de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, e é treinada pelo cubano Francisco Arado. Em 2011, ela tomou a difícil decisão de interromper os estudos para se dedicar exclusivamente aos treinos, tendo em vista o Pan-Americano de Guadalajara. Caroline sabia que a indicação para o Pré-Olímpico dependeria muito do resultado do Pan. “Dei azar, peguei logo nas oitavas a Wu Xue (chinesa naturalizada dominicana), que nunca perdeu um jogo nas Américas, e fui eliminada”, diz a adolescente. “Como demonstrei bom jogo, fui indicada para disputar o Pré-Olímpico, cheguei à final e consegui a vaga para a Olimpíada.” A preparação para Londres inclui uma rotina diária de mais de seis horas de treino , sendo cinco horas na mesa e o restante na academia, de segunda a sábado, sem folga. Ela sente falta da rotina normal de adolescente? “Não, porque minha paixão é o esporte.”

“A minha classificação para Londres não era esperada e mesmo assim eu consegui a vaga. Sei que é difícil, mas sonho com uma medalha” - Ana Sátila Vargas
“A minha classificação para Londres não era esperada e mesmo assim eu consegui a vaga. Sei que é difícil, mas sonho com uma medalha” – Ana Sátila Vargas

A vaga olímpica também teve sabor de presente para a mato-grossense Ana Sátila Vargas. No dia 10 de março, três dias antes de completar 16 anos, ela conquistou seu espaço na delegação brasileira que vai para Londres, ao conquistar o Pan-Americano de canoagem slalom (descida do rio com obstáculos). Ana, que utiliza o caiaque k1, treina em Foz do Iguaçu, no Paraná. A caçula da delegação nacional começou a praticar a canoagem aos 9 anos. Com apenas 12, foi campeã brasileira – competindo com adultos. A relação de Ana com as águas começou cedo. Ela foi estimulada pelo pai, nadador campeão de diversas travessias. Primeiro, sonhou em ser maratonista aquática, prova que exige do atleta resistência para suportar provas longas e força para superar as adversárias na reta final. Seu destino mudou quando um técnico de canoagem de Primavera do Leste, sua cidade natal, sugeriu que tentasse outro esporte. Ana experimentou a canoagem e acabou se encantando de imediato.

A impressionante evolução de Ana indica que ela pode chegar a qualquer lugar. Confiança é o que não falta. “Eu vivo me surpreendendo”, diz a garota. “Nem a vaga de Londres era esperada e eu consegui. Sei que é difícil, mas sonho com uma medalha.” Sua preparação tem sido intensa. Dois meses antes da Olimpíada, ela enfrentou uma intensa rotina de competições, em países como França, Espanha e Estados Unidos. “Treino todos os dias, de manhã e à tarde, faço corrida e malho na academia”, diz. “É puxado. Quando não estou treinando, estou estudando. Como não sobra tempo para mais nada, você precisa gostar muito do que faz.” Ana é treinada pelo italiano Etore Ivaldi, que assumiu a seleção brasileira de canoagem slalom em novembro do ano passado. “Com a Ana eu tenho um problema diferente, porque ela não para nunca”, diz Ivaldi. “Se deixar, ela treina o tempo todo.” É com a dedicação obstinada de atletas como Jonathan, Caroline e Ana que o Brasil pode, enfim, se tornar uma potência olímpica. Se não for em Londres, que seja no Rio, em 2016.

JONATHAN HENRIQUE SILVA

Nascimento: 21/07/1991, Varginha (MG)
Altura: 1,87 m
Peso: 84 kg
Melhor marca no salto triplo: 17,39 m
Treina em: São Paulo (SP)
Melhores resultados: Campeão Brasileiro Juvenil (2010) e Campeão do Torneio FPA 2012 (Federação Paulista de Atletismo)

CAROLINE KUMAHARA

Nascimento: 27/07/1995, São Paulo (SP)
Peso: 54 kg
Altura: 1,58 m
Treina em: São Caetano do Sul (SP)
Mão de jogo: direita Estilo de jogo: clássico ofensivo
Melhores resultados: classificação em primeiro lugar para o Pan-Americano 2011, classificação para os Jogos Olímpicos da Juventude 2010 e campeã do Latino-Americano Juvenil 2010

ANA SÁTILA VARGAS

Nascimento: 13/03/1996, Primavera do Leste (MT)
Altura: 1,63 m
Peso: 60 kg
Treina em: Foz do Iguaçu (PR)
Modalidade na canoagem: slalom
Melhores resultados: Campeã Brasileira de Canoagem (2008 e 2010) e Campeã do Pan-Americano de Canoagem (2011)

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