Fechar

www.agnoticia.org

Buscar

ATLETAS De futuro incerto no Brasil, esgrima tenta sair da sombra
CIÊNCIA/MEIO AMBIENTE

ATLETAS De futuro incerto no Brasil, esgrima tenta sair da sombra

OCTOBER Reportar Abuso


Renzo Agresta é um atleta essencial. Prestes a completar 30 anos, o melhor esgrimista brasileiro é também um dos mais experientes da delegação que buscará resultados inéditos nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

Na capital carioca, o legítimo paulistano disputará sua quarta competição do tipo (com apenas 19 anos, esteve em Atenas-2004 e participou de todas as Olimpíadas desde então). Está nos ombros, nas mãos e nas pernas dele a responsabilidade de buscar uma aguardada medalha para o País nessa modalidade pouco popular em terras nacionais, mas repleta de tradição no mundo todo. Em 2014, Renzo chegou ao 15º lugar no ranking mundial de esgrima, posição nunca antes conquistada por um brasileiro. Atualmente, ele treina em Roma com a seleção italiana, uma das melhores do mundo, graças a um convênio entre a Confederação Brasileira de Esgrima (CBE) e a Federação Italiana de Esgrima e ao apoio de parceiros e patrocinadores privados, como a Petrobras, o Esporte Clube Pinheiros e a PBT Fencing, marca de artigos esportivos da Hungria que fornece a roupa de competição.

Essa realidade é bem diferente da que Agresta conheceu quando começou a praticar o esporte, aos 12 anos, em 1997, no Club Athletico Paulistano, em São Paulo. “De 1997 a 2005 eu não tive nenhum retorno financeiro com o esporte, e só pude me dedicar à esgrima pela ajuda que recebi da minha família”, diz o octacampeão brasileiro, que já foi eleito oito vezes o melhor atleta da esgrima no País pelo Prêmio Olímpico Brasileiro. “Vejo que de lá para cá a esgrima no Brasil teve uma melhora qualitativa, mas não quantitativa.” E quantidade, no caso de um esporte pouco popular, é realmente importante. O número de competições e de atletas brasileiros permanece o mesmo, o que diminui as chances de encontrar novos talentos, muito embora os atletas de ponta tenham melhorado seus resultados.

Segundo a CBE, apenas 2 mil pessoas praticam esgrima no Brasil. Destas, 500 são atletas inscritos na confederação. “Não existe essa coisa de esgrima ser esporte de elite. Isso é lenda”, diz Ricardo Machado, vice-presidente e coordenador técnico da CBE. “Ela não é popular porque não existe uma política de Estado para o desenvolvimento do esporte nas escolas.” Na Itália, para onde a confederação mandou o talentoso Agresta, todos os colégios públicos oferecem o ensino do esporte. De acordo com Machado, o principal entrave para a maior popularização da esgrima no Brasil é o fato de ela só ser praticada em clubes esportivos e academias privadas. “Esses clubes e academias são, em sua maioria, caros, o que impossibilita o acesso de grande parte da população”, diz. No País todo, somente 20 clubes oferecem aulas de esgrima. Eles estão concentrados em sete locais: São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Recife e Distrito Federal. O treinador de Renzo Agresta e da seleção brasileira de esgrima, o russo Alkhas Lakerbai, possui uma academia em São Paulo, cuja mensalidade gira em torno de R$ 280. Ele diz acreditar, no entanto, que a baixa procura pelo esporte se deve à exposição diminuta da modalidade. “A esgrima não aparece na tevê, por isso as empresas não se interessam em patrocinar”, diz. “Antes da escolha do Rio como sede da Olimpíada de 2016, a esgrima não tinha nenhum patrocinador.”

A esgrima brasileira vive um paradoxo. De um lado, passa por seu melhor momento, atraindo investimentos inéditos e assistindo ao bom desempenho de alguns de seus atletas de ponta. De outro, encara os reflexos de uma crise gerada pela necessidade de devolver R$ 850 mil ao Ministério do Esporte, notícia que causou revolta entre os esgrimistas. Faltando pouco mais de um ano para os Jogos Olímpicos de 2016, a atleta Élora Pattaro, de 29 anos, integrante da seleção brasileira de esgrima, decidiu abandonar a equipe em razão da suposta falta de apoio da CBE. Em um desabafo postado em forma de vídeo nas redes sociais, Élora, primeira brasileira a conquistar uma medalha da modalidade em um campeonato mundial, criticou o que chamou de falta de transparência nas contas da confederação e chegou a dizer que sentia vergonha de competir pelo Brasil. A gota d’água que determinou a saída da seleção foi o fato da CBE ter devolvido ao Ministério do Esporte, em fevereiro de 2015, quase 70% de uma verba de R$ 1,1 milhão que havia sido aprovada para custear participações de esgrimistas brasileiros em competições internacionais, além de estágios.

Renzo Agresta no Coliseu, em Roma. Ele treina com a seleção italiana, uma das melhores do mundo
Renzo Agresta no Coliseu, em Roma. Ele treina com a seleção italiana, uma das melhores do mundo

O patrocínio da Petrobras à CBE começou em 2012. O montante repassado anualmente pela companhia chega a R$ 2,3 milhões, que, segundo a confederação, são distribuídos entre comissões técnicas, atletas e o custeio de participações em competições internacionais. A entidade recebe ainda R$ 1,9 milhão por meio da Lei Agnelo/Piva. Em 2014, também teve o aporte dos agora agora famosos R$ 1,1 milhão do Ministério do Esporte, dos quais R$ 850 mil foram devolvidos, por iniciativa da própria CBE, garante o vice-presidente Machado. “Temos um planejamento bastante rígido e, infelizmente, parte da verba que havíamos conseguido do Ministério do Esporte não foi liberada a tempo de cumprimos nosso projeto”, diz. “Por isso, decidimos devolver essa quantia.” A notícia da devolução do dinheiro levou a Associação Brasileira de Esgrimistas (ABE), formada por 80 atletas, incluindo Agresta, a enviar um documento à CBE cobrando mais transparência nas contas. “Os atletas em geral não ficam sabendo como o dinheiro da CBE é investido”, diz Maju Herklotz, ex-esgrimista e diretora da ABE. “E não me parece que a confederação esteja preocupada em deixar isso claro para a gente.”

Maju também critica o fato da CBE investir quase a totalidade de seus recursos nos atletas de alto nível. “Pode não ser uma obrigação investir na base, mas deveria ser uma escolha visando o futuro da esgrima no Brasil”, diz. Segundo a dirigente da ABE, a torcida dos jogos de esgrima é formada basicamente por parentes dos atletas. “É uma pena, porque é um esporte muito bonito, um combate que não precisa de força, mas sim de lógica e agilidade.” A CBE se defende com o argumento de que não dispõe de recursos para desenvolver o esporte de base. A entidade afirma que o dinheiro que recebe é “carimbado”, ou seja, tem um fim específico, que é auxiliar os atletas de ponta. “Adoraríamos poder investir mais na base, mas isso ainda não é possível”, diz Machado. De acordo com o vice-presidente da confederação, atualmente apenas 12 atletas são contemplados com o patrocínio da Petrobras, enquanto o ideal seria que esse número chegasse a pelo menos 24 – quatro atletas por arma e gênero. “Não tem mágica. Nosso recurso é finito e limitado.”

Renzo Agresta é o único atleta que recebe 100% de apoio da CBE. “Pessoalmente, tenho um bom suporte, mas entendo que muitos atletas não têm a ajuda que acreditam merecer”, diz. Ao mesmo tempo, o esgrimista brasileiro diz que o esporte é muito “meritocrático”. Quem consegue bons resultados acaba recebendo mais investimentos. “Medalhas geram verba para a CBE e, por isso, os atletas que têm melhores resultados devem receber mais”, afirma. Em fevereiro de 2015, Agresta se tornou o primeiro esgrimista brasileiro a receber a Bolsa Pódio, auxílio financeiro cedido pelo Ministério do Esporte a atletas com chance de disputar medalha nos Jogos Olímpicos ou Paraolímpicos de 2016. Segundo o ME, o esgrimista foi agraciado por ter conseguido se posicionar entre os vinte melhores do ranking mundial, no ano passado, e pelo ótimo desempenho que teve nas últimas temporadas. Em 2014, ele também conquistou outra marca inédita para o esporte no Brasil ao se tornar bicampeão individual dos Jogos Sul-Americanos. O atleta ainda tem no currículo três medalhas de bronze em Jogos Pan-americanos, uma no Rio-2007, pelo sabre individual, e duas em Guadalajara-2011, pelo sabre por equipes e pelo florete por equipes. Resultados que podem ser creditados à dedicação total de Agresta ao esporte. Desde a adolescência, ele treina pelo menos cinco vezes por semana e nunca exerceu outra profissão além da esgrima. “Eu e o pai do Renzo fizemos todos os sacrifícios para que ele tivesse o mínimo necessário para poder se dedicar ao esporte. Não foi fácil, mas valeu a pena”, diz Denise Zeglio Agresta, mãe do atleta.

Com a saída de Élora da seleção e quase todas as esperanças de medalha em 2016 depositadas em Renzo, o futuro da esgrima no País é incerto. “Não temos a menor ideia do projeto governamental para a esgrima nos Jogos de 2020. Será que o patrocínio vai continuar? Não sabemos”, afirma o vice-presidente da confederação que, ao mesmo tempo, reconhece que o esporte evolui no País. “Isso é uma prova de que nós temos futuro.” Opinião compartilhada por Agresta, que pede uma política esportiva para expandir o esporte. “Precisamos de mais investimentos em viagens e na contratação de técnicos de alto nível. Precisamos rever como aplicamos a nossa verba caso a gente queira ser, um dia, uma potência na esgrima.”

DE ARMA A ESPORTE

Apesar da baixa popularidade no País, a esgrima é um dos esportes mais tradicionais do mundo. Ela migrou do âmbito militar para o esportivo por volta do século XV, na Itália e na Alemanha, primeiros países a organizarem associações de praticantes, geralmente da aristocracia. A esgrima chegou ao Brasil quando, em 1810, fundou-se a Academia Real Militar, que incluía a prática das armas. Somente na virada do século XX, no entanto, a atividade ganhou caráter civil. Em 1927, foi fundada a CBE, e nove anos depois o Brasil estreava na esgrima nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. A modalidade está presente nos Jogos desde a primeira Olimpíada da Era Moderna, realizada em 1896. Hoje, é dividida em seis categorias, de acordo com o tipo de arma e o gênero dos atletas: florete masculino e feminino, espada masculina e feminina, sabre masculino e feminino.

shutterstock_95255941

Há competições individuais e por equipes. Apesar dos fundamentos das três categorias serem semelhantes, as regras variam conforme a arma:

_No florete, pontua quem tocar com a arma apenas o tronco do adversário, incluindo as costas.

_Na espada, toda a superfície do corpo do oponente é válida, incluindo tocar na máscara, nos braços e nas pernas.

_No sabre, é permitido tocar no tronco, cabeça e braços do adversário, e o toque com a lateral da arma também conta pontos.

Publicidade

Veja Mais isso


Isso você não pode perder